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quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Político com decência: espécie em extinção?



Está mais do que claro, que brasileiro nenhum ainda acredita que exista político com decência e honestidade no nosso mundo tupiniquim. Então li, recentemente no blog de um dileto amigo, o testemunho que segue:
CABRA MACHO1
OPOVO – Opinião – 18/02/2012

Essa semana, eu me lembrei insistentemente da frase de Rui Barbosa: “De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto”.

Prof. Mourão Cavalcante
Pois bem, aqui no Ceará, nós podemos nos orgulhar do inverso. Alguém que teve a coragem de situar-se no contra-fluxo da maioria, guiado por sua consciência. A figura responsável por essa atitude foi o deputado Heitor Férrer (PDT). Essa história precisa ser conhecida, divulgada e aplaudida de pé.

O nobre deputado foi procurado, em sua residência, por uma comissão de parlamentares – todos profundamente identificados com o Governo estadual – convidando-o para assumir uma vaga de conselheiro do Tribunal de Contas dos Municípios. Para muitos um sonho/presente vitalício.

Heitor Férrer simplesmente recusou. Disse que, apesar de honrado com a deferência, não podia aceitar a indicação. Preferia continuar seu mandato legislativo e seguir coerente com sua trajetória de parlamentar da oposição. Não se sentia bem em trair a confiança de seus seguidores.

Tribunal de Contas do Ceará
Se a proposta teve um gosto de indecência, ela encontrou no “baixinho” uma resposta ímpar de coragem, honradez e ética. Não se vergou aos cantos de sereia, por mais que fossem encantadores. Sim conterrâneos, ainda temos homens dignos em nossa terra. Pessoas que não cedem às seduções do poder. Que preferem manter a coerência em suas condutas pessoais. Não que seja indigno pertencer ao tribunal, mas a forma cavilosa como se insinuou, essa mereceu – de quem tem caráter – a resposta exata: não quero!

Heitor Férrer pode até ser criticado pelos oportunistas de plantão. Perdeu a chance de um cargo vitalício. Mas hoje ele poderá olhar a face de seus filhos e dos seus correligionários de peito aberto e fronte erguida. Não precisará se esconder em artimanhas verbais e discursos demagógicos. Na hora de ter mostrado caráter, ele mostrou. Parabéns, cabra macho das Lavras…

Antonio Mourão Cavalcante – Médico, antropólogo e professor universitário

É quase para não acreditar, que o Brasil ainda tem solução e que a espécie de político com decência e com honestidade ainda não foi exterminada pelo fisiologismo e pela corrupção. Ainda, temos em quem votar. Por isso, estou retransmitindo na íntegra esse importante depoimento do insigne Prof.Dr.Dr. Antônio Mourão Cavalcante, da Universidade Federal do Ceará.

Se, você e, tão pouco, eu podemos premiar essas pessoas raríssimas com um 'Nobel da Decência', pelo menos, precisamos divulgar o nome dessas admiráveis pessoas à exaustão, na esperança que decência e retidão, no Brasil, façam escola.

Heitor Férrer2

Esse grande cearense de Lavras da Mangabeira, médico de profissão, entrou na política em 1987, eleito para vereador de Fortaleza, onde permaneceu por 3 mandatos consecutivos. Atualmente, está como deputado estadual na Assembleia Legislativa do Ceará, reeleito para o terceiro mandato com 52.700 votos.

A Assembleia Legislativa do Ceará tem 46 deputados, divididos naturalmente em blocos de 'situação' e de 'oposição'. Mas, por motivos 'regionais', a 'oposição' teima em não assumir a sua função constitucional.

Deputado Heitor Férrer

Agora pasme, o Dep. Heitor Férrer, pertence ao bloco de 'sustentação' do Governo local, mas é o único deputado a fazer oposição no Ceará. E o faz com tamanha competência e brilhantismo, dentro dos melhores princípios ético, que enche de orgulho os seus eleitores. Insistentemente, está requerendo explicações, informações e, até CPIs para esclarecer fundadas suspeitas de corrupção, de abuso de poder, de desvio de finalidade, etc. Mas, a maioria absoluta (situação + 'oposição') está sempre vigilante para 'arquivar' os pleitos do Deputado Heitor Férrer.

Em sua trajetória política sempre ganhou os seus votos estritamente como resultado de sua atuação parlamentar, ou seja, seus eleitores têm consciência do porquê e de em quem votam.

Decência e Honestidade ainda existem neste País. Assim, espero que você ajude o Brasil e divulgue excessivamente esse fato. Talvez até, essa atitude trace uma nova trajetória na política nacional.

Acelino Pontes
1http://blog.opovo.com.br/blogdomourao/cabra-macho/
2http://www.heitorferrer.com.br/

quinta-feira, 10 de março de 2011

O dia dos Mil Mortos


O Ceará sempre sofreu com as secas. Seca não, péssima administração da água. Ao fim do Século 19, nos anos de 1877, 1878 e 1879, tivemos o pior período de estiagem, a fatídica Seca dos Três Setes. Logo no momento em que Fortaleza era uma só festa; se descobrira, ante a grande riqueza pela fartura do algodão, como ‘Paris dos Trópicos’. Ganhara design novo, topografia em xadrez, febre consumerista por produtos franceses, lojas regadas a ‘Au Phare de La Bastille’, ‘Paris des Dames’; brilhava com a ‘Confeitaria Maison’, melhor ainda, com a ‘Casa Louvre’, esbanjo de luxo e de preciosidades.

Do luxo à peste. Com a seca, o volume de 110 mil retirantes invadiu a capital cearense, contrastando com apenas 20 mil fortalezenses. Miséria e fome cresciam em ritmo galopante. Não tardou que, do vizinho Rio Grande do Norte, a importação da varíola ocorresse e transformasse Fortaleza num palco da morte.

O autor Lira Neto descreve esses tempos dramáticos com uma beleza literária impar em seu livro O Poder e a Peste – A vida de Rodolfo Teófilo. Vejamos alguns tópicos dessa linda obra, embora recheada de detalhes macabros:

 "Não havia quem os convencesse do contrário. Nem que o diabo tocasse rabeca . . . . [Os retirantes] não iam deixar ninguém lhes espetar no braço, assim sem mais nem menos, uma mentira de remédio [vacina], que diziam ser preparado com o próprio veneno da Peste . . . . Não adiantava chamar a polícia, escorraça-los em praça pública, ameaça-los de prisão. Nada, nem ninguém, os dobraria."
"Desgraça só quer mesmo princípio. De fato, a Peste não demorou muito a mostrar toda a força que tinha."
"Do balcão da farmácia . . .  Rodolfo observava aqueles cortejos com horror e reprovação. Os cadáveres dos variolosos, decompostos pelas feridas da doença, eram conduzidos a céu aberto. Muitos corpos, em que a varíola havia separado a carne dos ossos, eram socados em sacos de estopa, que depois se amarravam a um pau para facilitar o transporte."
"Os defuntos mais inteiros, aqueles que podiam ser transportados amarrando-lhes mãos e pés a uma vara, iam cobertos por ligeiros trapos, que mal lhe escondiam as vergonhas."
"Foi no dia 10 de dezembro [de 1878], quinzena antes do Natal. Aquele seria o dia do cão. Ninguém nunca mais poderia esquecer. O dia inteiro, não houve único minuto em que não chegasse pelo menos um defunto para ser enterrado na Lagoa Funda. Os carregadores precisavam fazer filas para despejar os corpos."
"A confusão era total. Enquanto aguardavam a vez, bêbados de não se aguentar em pé, os carregadores deitavam no chão os cadáveres, que já começavam a apodrecer. No final da tarde, os registros oficiais indicavam que o cemitério recebera, só naquele dia, nada menos de 1.004 cadáveres. Nunca se tinha visto, em tempo algum, morrer tanta gente junta. Talvez Deus tivesse fechado de vez os olhos para aquela gente. Ou então era o Dia do Juízo Final. O Dia dos Mil Mortos."
E o drama dantesco não parou por aí. No cemitério os corpos eram simplesmente amontoados. Ao fim desse lúgubre dia, se conta que restaram 238 cadáveres insepultos. E não mais restava uma só fio de forças entres os ébrios coveiros. Mas, o pior dos piores, aconteceria quando retomassem ao trabalho:

Na manhãzinha seguinte, quando voltaram para completar a tarefa, os coveiros avistaram de longe a nuvem negra sobre a Lagoa Funda. Centenas de urubus rodopiavam e davam rasantes no céu. À distância, também podia se ouvir o latido de cães furiosos, um rosnado dos infernos, vindo lá das bandas do cemitério.”
Quando se achegaram, deram de cara com a cena que os deixou estatelados. Um espetáculo que conseguiu tirar o prumo até mesmo homens embrutecidos, acostumados a meter as mãos nuas em pilhas de cadáveres bexiguentos. Não era mesmo coisa bonita de se ver. Algo de impressionar, borrar as calças de qualquer valentão: um bando de cães arreganhavam os dentes, disputando entre si – e com o urubus – pedaços de carniça humana.”
Àquela hora da manhã, ainda de jejum, os coveiros tiveram que se encharcar de toda cachaça que encontraram pela frente. Depois de enfiar litros de pinga goela abaixo, foram se engalfinhar com os animais, afugentando-os com pauladas e pedradas. Poucas horas depois, o que tinha sobrado daquela carnificina – fosse gente, fosse bicho – era atirado a uma vala comum, recém-aberta.”
Somente entre setembro e dezembro de 1878, a crônica informa que a peste fez 24.849 vítimas em Fortaleza. E lembre-se. A capital cearense de antes da Seca dos Três Setes possuía apenas 20 mil residentes.
Acelino Pontes




Livro:
Lira Neto: O Poder e a Peste - A vida de Rodolfo Teófilo. 2ª Edição. Fortaleza: Edições Fundação Demócrito Rocha, 2001

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