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quinta-feira, 10 de março de 2011

O dia dos Mil Mortos


O Ceará sempre sofreu com as secas. Seca não, péssima administração da água. Ao fim do Século 19, nos anos de 1877, 1878 e 1879, tivemos o pior período de estiagem, a fatídica Seca dos Três Setes. Logo no momento em que Fortaleza era uma só festa; se descobrira, ante a grande riqueza pela fartura do algodão, como ‘Paris dos Trópicos’. Ganhara design novo, topografia em xadrez, febre consumerista por produtos franceses, lojas regadas a ‘Au Phare de La Bastille’, ‘Paris des Dames’; brilhava com a ‘Confeitaria Maison’, melhor ainda, com a ‘Casa Louvre’, esbanjo de luxo e de preciosidades.

Do luxo à peste. Com a seca, o volume de 110 mil retirantes invadiu a capital cearense, contrastando com apenas 20 mil fortalezenses. Miséria e fome cresciam em ritmo galopante. Não tardou que, do vizinho Rio Grande do Norte, a importação da varíola ocorresse e transformasse Fortaleza num palco da morte.

O autor Lira Neto descreve esses tempos dramáticos com uma beleza literária impar em seu livro O Poder e a Peste – A vida de Rodolfo Teófilo. Vejamos alguns tópicos dessa linda obra, embora recheada de detalhes macabros:

 "Não havia quem os convencesse do contrário. Nem que o diabo tocasse rabeca . . . . [Os retirantes] não iam deixar ninguém lhes espetar no braço, assim sem mais nem menos, uma mentira de remédio [vacina], que diziam ser preparado com o próprio veneno da Peste . . . . Não adiantava chamar a polícia, escorraça-los em praça pública, ameaça-los de prisão. Nada, nem ninguém, os dobraria."
"Desgraça só quer mesmo princípio. De fato, a Peste não demorou muito a mostrar toda a força que tinha."
"Do balcão da farmácia . . .  Rodolfo observava aqueles cortejos com horror e reprovação. Os cadáveres dos variolosos, decompostos pelas feridas da doença, eram conduzidos a céu aberto. Muitos corpos, em que a varíola havia separado a carne dos ossos, eram socados em sacos de estopa, que depois se amarravam a um pau para facilitar o transporte."
"Os defuntos mais inteiros, aqueles que podiam ser transportados amarrando-lhes mãos e pés a uma vara, iam cobertos por ligeiros trapos, que mal lhe escondiam as vergonhas."
"Foi no dia 10 de dezembro [de 1878], quinzena antes do Natal. Aquele seria o dia do cão. Ninguém nunca mais poderia esquecer. O dia inteiro, não houve único minuto em que não chegasse pelo menos um defunto para ser enterrado na Lagoa Funda. Os carregadores precisavam fazer filas para despejar os corpos."
"A confusão era total. Enquanto aguardavam a vez, bêbados de não se aguentar em pé, os carregadores deitavam no chão os cadáveres, que já começavam a apodrecer. No final da tarde, os registros oficiais indicavam que o cemitério recebera, só naquele dia, nada menos de 1.004 cadáveres. Nunca se tinha visto, em tempo algum, morrer tanta gente junta. Talvez Deus tivesse fechado de vez os olhos para aquela gente. Ou então era o Dia do Juízo Final. O Dia dos Mil Mortos."
E o drama dantesco não parou por aí. No cemitério os corpos eram simplesmente amontoados. Ao fim desse lúgubre dia, se conta que restaram 238 cadáveres insepultos. E não mais restava uma só fio de forças entres os ébrios coveiros. Mas, o pior dos piores, aconteceria quando retomassem ao trabalho:

Na manhãzinha seguinte, quando voltaram para completar a tarefa, os coveiros avistaram de longe a nuvem negra sobre a Lagoa Funda. Centenas de urubus rodopiavam e davam rasantes no céu. À distância, também podia se ouvir o latido de cães furiosos, um rosnado dos infernos, vindo lá das bandas do cemitério.”
Quando se achegaram, deram de cara com a cena que os deixou estatelados. Um espetáculo que conseguiu tirar o prumo até mesmo homens embrutecidos, acostumados a meter as mãos nuas em pilhas de cadáveres bexiguentos. Não era mesmo coisa bonita de se ver. Algo de impressionar, borrar as calças de qualquer valentão: um bando de cães arreganhavam os dentes, disputando entre si – e com o urubus – pedaços de carniça humana.”
Àquela hora da manhã, ainda de jejum, os coveiros tiveram que se encharcar de toda cachaça que encontraram pela frente. Depois de enfiar litros de pinga goela abaixo, foram se engalfinhar com os animais, afugentando-os com pauladas e pedradas. Poucas horas depois, o que tinha sobrado daquela carnificina – fosse gente, fosse bicho – era atirado a uma vala comum, recém-aberta.”
Somente entre setembro e dezembro de 1878, a crônica informa que a peste fez 24.849 vítimas em Fortaleza. E lembre-se. A capital cearense de antes da Seca dos Três Setes possuía apenas 20 mil residentes.
Acelino Pontes




Livro:
Lira Neto: O Poder e a Peste - A vida de Rodolfo Teófilo. 2ª Edição. Fortaleza: Edições Fundação Demócrito Rocha, 2001

domingo, 6 de março de 2011

Mataram a Piscininha

De há muito não passava pela Praia de Iracema. Ontem foi o dia de revê-la. Que tristeza, que saudades. Doeu fundo no peito ver quão desolada e abandonada está a Praia de Iracema. Tudo quebrado, casa de fantasmas.

E o grande Estoril? Nem perguntem. Tempos gloriosos viveu o Estoril. Local maior da boemia, das noites, dos papos intermináveis, do bem viver a noite. Era a vida da Praia de Iracema, o suspiro dos que, em Fortaleza, pensavam. Pouco restou, nem mesmo janelas e portas. Tudo ao relento do nada.

Mas, o que mais doeu, foi passar por onde antes existia a Piscininha. Os olhos ficaram molhados, muito molhados. As recordações borbulhavam na cabeça. Filmes e mais filmes vinham à mente, todos gerando profunda saudade dos tempos de menino barrigudo, de calças curtas e de algumas peraltices.

Nunca fui menino de viver na rua. A minha maior aventura foi, nesse tempo, ir tomar banho e brincar na Piscininha. E era uma aventura e tanto. Todo dia, depois da escola matinal, almoço e correria por mais de quilômetro para me jogar na Piscininha. Menino besta, de idade pequena mas, a Piscinhinha era a festa maior, em tudo brotava alegria e prazer.

Não era feroz como a praia que amedrontava até aos nadadores, muito mais ainda a quem nunca tinha aprendido a nadar. Tinha pedras que serviam de trampolim para pular na água, que às vezes me chegava ao ombro, de tão pequeno que era. Tinha o ir e vir da água em suas beiradas, que lembrava as ondas da praia, de vez até chegavam a formar ondas. Era muito gostoso ficar sentado na 'praia' da Piscininha, deixar as pequenas ondas bater nas costas e ir-se novamente. Naturalmente, que na praia as ondas eram mais emocionantes, mas metiam medo a quem não sabia nadar.

Todo dia estava eu lá na Piscinha. Muita emoção e alegria. Lá eu esquecia tudo de ruim, só pensava no prazer que tinha em brincar na Piscininha. Eu ganhava uma tranqüilidade enorme. E isso me fortalecia e me enchia de forças para encarar as dificuldades, porque no outro dia eu sabia que a Piscininha iria me contentar novamente.

Mas, um dia foram enredar lá em casa. Descobriram onde eu ficava todas as tardes: a mais de quilômetro de casa, na Piscininha. Uma pisa de 'fio elétrico' que me deixou os couros a arder por quase uma semana e a proibição, sob pena de mais uma sova com o maldito fio, caso voltasse à Piscininha. Por que? Não havia nada demais, era só brincar na água e a Piscininha nunca encheu mais do que alcançar o meu pescoço. Nunca entendi o por quê.

Me tiraram o único brinquedo que tinha. Mas, nunca me esqueci da Piscininha. Assim que aprumei a espinha, voltava lá com muita frequência e ficava horas sentado, vendo o ir e vir da água, lembrando os tempos bons. Também, cismando e na esperança de que, como outrora, a Piscininha me enchesse de forças para encarar as dificuldades do hoje.

Agora, ela se foi e, como a minha infância, não voltará. Está tudo debaixo de sete palmos.

Acelino Pontes

Nota: A Piscininha era um reduto da Praia de Iracema (em Fortaleza), que foi tomada por quebra-mar de pedras, que deixava vazar parte da água do mar (na maré alta) e formava uma pequena lagoinha que a população chamava de Piscininha.

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