Minha
mãe biológica descobriu mais tarde que a minha mãe nunca tinha se
formado na faculdade e que o meu pai nunca tinha completado o ensino
médio. Ela se recusou a assinar os papéis da adoção. Ela só
aceitou meses mais tarde quando os meus pais prometeram que algum dia
eu iria para a faculdade. E, 17 anos mais tarde, eu fui para a
faculdade. Mas, inocentemente escolhi uma faculdade que era quase tão
cara quanto Stanford. E todas as economias dos meus pais, que eram da
classe trabalhadora, estavam sendo usados para pagar as mensalidades.
Depois de seis meses, eu não podia ver valor naquilo.
Eu
não tinha idéia do que queria fazer na minha vida e menos idéia
ainda de como a universidade poderia me ajudar naquela escolha. E lá
estava eu, gastando todo o dinheiro que meus pais tinham juntado
durante toda a vida. E então decidi largar e acreditar que tudo
ficaria ok.
Foi
muito assustador naquela época, mas olhando para trás foi uma das
melhores decisões que já fiz. No minuto em que larguei, eu pude
parar de assistir às matérias obrigatórias que não me
interessavam e comecei a frequentar aquelas que pareciam
interessantes. Não foi tudo assim romântico. Eu não tinha um
quarto no dormitório e por isso eu dormia no chão do quarto de
amigos. Eu recolhia garrafas de Coca-Cola para ganhar 5 centavos, com
os quais eu comprava comida. Eu andava 11 quilômetros pela cidade
todo domingo à noite para ter uma boa refeição no templo
hare-krishna. Eu amava aquilo.
Muito
do que descobri naquela época, guiado pela minha curiosidade e
intuição, mostrou-se mais tarde ser de uma importância sem preço.
Vou dar um exemplo: o Reed College oferecia naquela época a melhor
formação de caligrafia do país. Em todo o campus, cada poster e
cada etiqueta de gaveta eram escritas com uma bela letra de mão.
Como eu tinha largado o curso e não precisava frequentar as aulas
normais, decidi assistir as aulas de caligrafia. Aprendi sobre fontes
com serifa e sem serifa, sobre variar a quantidade de espaço entre
diferentes combinações de letras, sobre o que torna uma tipografia
boa. Aquilo era bonito, histórico e artisticamente sutil de uma
maneira que a ciência não pode entender. E eu achei aquilo tudo
fascinante.
Nada
daquilo tinha qualquer aplicação prática para a minha vida. Mas 10
anos mais tarde, quando estávamos criando o primeiro computador
Macintosh, tudo voltou. E nós colocamos tudo aquilo no Mac. Foi o
primeiro computador com tipografia bonita. Se eu nunca tivesse
deixado aquele curso na faculdade, o Mac nunca teria tido as fontes
múltiplas ou proporcionalmente espaçadas. E considerando que o
Windows simplesmente copiou o Mac, é bem provável que nenhum
computador as tivesse.
Se
eu nunca tivesse largado o curso, nunca teria frequentado essas aulas
de caligrafia e os computadores poderiam não ter a maravilhosa
caligrafia que eles têm. É claro que era impossível conectar esses
fatos olhando para frente quando eu estava na faculdade. Mas aquilo
ficou muito, muito claro olhando para trás 10 anos depois.
De
novo, você não consegue conectar os fatos olhando para frente. Você
só os conecta quando olha para trás. Então tem que acreditar que,
de alguma forma, eles vão se conectar no futuro. Você tem que
acreditar em alguma coisa – sua garra, destino, vida, karma ou o
que quer que seja. Essa maneira de encarar a vida nunca me
decepcionou e tem feito toda a diferença para mim.
Minha
segunda história é sobre amor e perda.
Eu
tive sorte porque descobri bem cedo o que queria fazer na minha vida.
Woz e eu começamos a Apple na garagem dos meus pais quando eu tinha
20 anos. Trabalhamos duro e, em 10 anos, a Apple se transformou em
uma empresa de 2 bilhões de dólares e mais de 4 mil empregados. Um
ano antes, tínhamos acabado de lançar nossa maior criação — o
Macintosh — e eu tinha 30 anos.
E
aí fui demitido. Como é possível ser demitido da empresa que você
criou? Bem, quando a Apple cresceu, contratamos alguém para dirigir
a companhia. No primeiro ano, tudo deu certo, mas com o tempo nossas
visões de futuro começaram a divergir. Quando isso aconteceu, o
conselho de diretores ficou do lado dele. O que tinha sido o foco de
toda a minha vida adulta tinha ido embora e isso foi devastador.
Fiquei sem saber o que fazer por alguns meses.
Senti
que tinha decepcionado a geração anterior de empreendedores. Que
tinha deixado cair o bastão no momento em que ele estava sendo
passado para mim. Eu encontrei David Peckard e Bob Noyce e tentei me
desculpar por ter estragado tudo daquela maneira. Foi um fracasso
público e eu até mesmo pensei em deixar o Vale [do Silício].
Mas,
lentamente, eu comecei a me dar conta de que eu ainda amava o que
fazia. Foi quando decidi começar de novo. Não enxerguei isso na
época, mas ser demitido da Apple foi a melhor coisa que podia ter
acontecido para mim. O peso de ser bem sucedido foi substituído pela
leveza de ser de novo um iniciante, com menos certezas sobre tudo.
Isso me deu liberdade para começar um dos períodos mais criativos
da minha vida. Durante os cinco anos seguintes, criei uma companhia
chamada NeXT, outra companhia chamada Pixar e me apaixonei por uma
mulher maravilhosa que se tornou minha esposa.
A
Pixar fez o primeiro filme animado por computador, Toy Story, e é o
estúdio de animação mais bem sucedido do mundo. Em uma
inacreditável guinada de eventos, a Apple comprou a NeXT, eu voltei
para a empresa e a tecnologia que desenvolvemos nela está no coração
do atual renascimento da Apple.
E
Lorene e eu temos uma família maravilhosa. Tenho certeza de que nada
disso teria acontecido se eu não tivesse sido demitido da Apple.
Foi
um remédio horrível, mas eu entendo que o paciente precisava. Às
vezes, a vida bate com um tijolo na sua cabeça. Não perca a fé.
Estou convencido de que a única coisa que me permitiu seguir adiante
foi o meu amor pelo que fazia. Você tem que descobrir o que você
ama. Isso é verdadeiro tanto para o seu trabalho quanto para com as
pessoas que você ama.
Seu
trabalho vai preencher uma parte grande da sua vida, e a única
maneira de ficar realmente satisfeito é fazer o que você acredita
ser um ótimo trabalho. E a única maneira de fazer um excelente
trabalho é amar o que você faz.
Se
você ainda não encontrou o que é, continue procurando. Não
sossegue. Assim como todos os assuntos do coração, você saberá
quando encontrar. E, como em qualquer grande relacionamento, só fica
melhor e melhor à medida que os anos passam. Então continue
procurando até você achar. Não sossegue.
Minha
terceira história é sobre morte.
Quando
eu tinha 17 anos, li uma frase que era algo assim: “Se você viver
cada dia como se fosse o último, um dia ele realmente será o
último.” Aquilo me impressionou, e desde então, nos últimos 33
anos, eu olho para mim mesmo no espelho toda manhã e pergunto: “Se
hoje fosse o meu último dia, eu gostaria de fazer o que farei hoje?”
E se a resposta é “não” por muitos dias seguidos, sei que
preciso mudar alguma coisa.
Lembrar
que estarei morto em breve é a ferramenta mais importante que já
encontrei para me ajudar a tomar grandes decisões. Porque quase tudo
— expectativas externas, orgulho, medo de passar vergonha ou falhar
— caem diante da morte, deixando apenas o que é apenas importante.
Não há razão para não seguir o seu coração.
Lembrar
que você vai morrer é a melhor maneira que eu conheço para evitar
a armadilha de pensar que você tem algo a perder. Você já está
nu. Não há razão para não seguir seu coração.
Há
um ano, eu fui diagnosticado com câncer. Era 7h30 da manhã e eu
tinha uma imagem que mostrava claramente um tumor no pâncreas. Eu
nem sabia o que era um pâncreas.
Os
médicos me disseram que aquilo era certamente um tipo de câncer
incurável, e que eu não deveria esperar viver mais de três a seis
semanas. Meu médico me aconselhou a ir para casa e arrumar minhas
coisas — que é o código dos médicos para “preparar para
morrer”. Significa tentar dizer às suas crianças em alguns meses
tudo aquilo que você pensou ter os próximos 10 anos para dizer.
Significa dizer seu adeus.
Eu
vivi com aquele diagnóstico o dia inteiro. Depois, à tarde, eu fiz
uma biópsia, em que eles enfiaram um endoscópio pela minha garganta
abaixo, através do meu estômago e pelos intestinos. Colocaram uma
agulha no meu pâncreas e tiraram algumas células do tumor. Eu
estava sedado, mas minha mulher, que estava lá, contou que quando os
médicos viram as células em um microscópio, começaram a chorar.
Era uma forma muito rara de câncer pancreático que podia ser curada
com cirurgia. Eu operei e estou bem.
Isso
foi o mais perto que eu estive de encarar a morte e eu espero que
seja o mais perto que vou ficar pelas próximas décadas. Tendo
passado por isso, posso agora dizer a vocês, com um pouco mais de
certeza do que quando a morte era um conceito apenas abstrato:
ninguém quer morrer. Até mesmo as pessoas que querem ir para o céu
não querem morrer para chegar lá.
Ainda
assim, a morte é o destino que todos nós compartilhamos. Ninguém
nunca conseguiu escapar. E assim é como deve ser, porque a morte é
muito provavelmente a principal invenção da vida. É o agente de
mudança da vida. Ela limpa o velho para abrir caminho para o novo.
Nesse momento, o novo é você. Mas algum dia, não muito distante,
você gradualmente se tornará um velho e será varrido. Desculpa ser
tão dramático, mas isso é a verdade.
O
seu tempo é limitado, então não o gaste vivendo a vida de um outro
alguém.
Não
fique preso pelos dogmas, que é viver com os resultados da vida de
outras pessoas.
Não
deixe que o barulho da opinião dos outros cale a sua própria voz
interior.
E
o mais importante: tenha coragem de seguir o seu próprio coração e
a sua intuição. Eles de alguma maneira já sabem o que você
realmente quer se tornar. Todo o resto é secundário.
Quando
eu era pequeno, uma das bíblias da minha geração era o Whole Earth
Catalog. Foi criado por um sujeito chamado Stewart Brand em Menlo
Park, não muito longe daqui. Ele o trouxe à vida com seu toque
poético. Isso foi no final dos anos 60, antes dos computadores e dos
programas de paginação. Então tudo era feito com máquinas de
escrever, tesouras e câmeras Polaroid.
Era
como o Google em forma de livro, 35 anos antes de o Google aparecer.
Era idealista e cheio de boas ferramentas e noções. Stewart e sua
equipe publicaram várias edições de Whole Earth Catalog e, quando
ele já tinha cumprido sua missão, eles lançaram uma edição
final. Isso foi em meados de 70 e eu tinha a idade de vocês.
Na
contracapa havia uma fotografia de uma estrada de interior
ensolarada, daquele tipo onde você poderia se achar pedindo carona
se fosse aventureiro. Abaixo, estavam as palavras:
“Continue
com fome, continue bobo.”
Foi
a mensagem de despedida deles. Continue com fome. Continue bobo. E eu
sempre desejei isso para mim mesmo. E agora, quando vocês se formam
e começam de novo, eu desejo isso para vocês. Continuem com fome.
Continuem bobos.
Obrigado.”
Steve
Jobs