quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Estava de bobeira




Pois, é. Estou tranquilo numa esquina qualquer, com um amigo. Só leveza e bom humor. Feliz. Simplesmente, feliz da vida. E com uma felicidade para ninguém por defeito. Tinha acabado de realizar o meu sonho: comprei aquela moto de que tanto sonhava. Linda de morrer e a hilaridade transbordava por todos os poros da minha pele. Não tinha coragem nem de a tocar - para não correr o risco de arranhar a pura lindeza e fascínio da minha moto - quanto mais de dar uma voltinha com ela. Estava só curtindo. Não parava de captar e de mostrar todos os seus detalhes e requintes ao amigo, que, a esta altura do campeonato, já deveria estar morrendo de inveja. Tudo isso era curtição pura e o júbilo me levava a todos os céus imagináveis e também até aos inimagináveis.

E de repente acontece isso:


O que é isso? Alguém pode me explicar?
Mas, espera aí. Deixa eu me acalmar e por os pensamentos em ordem. Pelo meu senso de direito e de justiça, quem é dono da rua, das vias públicas é o pedestre. E eu sou pedestre. Sou eu quem autorizo aos motoristas e condutores de carros e de outros veículos a transitarem nas ruas e vias públicas, desde que me respeitem e garantam a minha integridade física e psíquica. Para isso, elegi deputados e governos, que produziram um código de trânsito para regular esse meu direito irrenunciável.
E o que acontece? Os carros e veículos pintam e bordam nas ruas e eu fico de bobeira? São poderosas armas para matar e não respeitam ninguém.
Não, isso não pode ficar assim!
Mas, infelizmente essa é a nossa realidade. Anualmente, no Brasil, mais de 35 mil pessoas morrem em acidentes de trânsito. Isso, sem falar nos R$ 153 milhões unicamente para custear tratamento hospitalares dos acidentados no tráfego brasileiro. Uma média de R$ 390 por minuto.

E ainda tem mais: o índice de pedestres mortos representa 43,4% do total de vítimas de acidentes de trânsito. E é porque, pela lei, eu, pedestre, sou o dono da rua. Imagine só se eu não fosse.
Durma com um barulho desse!

Acelino Pontes


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