quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Crise: e eu com isso?


Sou um cidadão comum. Me poupe com essa de crise econômica, com baixa nas bolsas de valores, com especulação, muito menos ainda com mercado financeiro. Nem sou rico e nem sou pobre; sou tão somente o Seu Zé Ninguém e não tenho dinheiro para essas coisas de ricos.

Pois, quem pensa assim está redondamente enganado. Todos, rico ou pobre, temos que nos preocupar com essas 'coisas de ricos', antes que elas venham acabar com a sua vida financeira e o seu sustento, que estão seriamente ameaçados pelas tais crises econômicas, que se repetem a cada ano.

Ações

Tudo começou com as tais 'ações', que são papéis negociáveis nas bolsas de valores e teve início na Suécia em 1288 e, ao longo dos séculos, foi tomando corpo. Mas, o que é mesmo essa tal 'ação'?

Entenderá melhor neste exemplo: vamos supor que você se decida a criar uma fábrica para a produção de mesas. Para isso, naturalmente, precisará de capital, pois terá custos com matéria-prima (em especial madeira), maquinário, pessoal especializado, instalações e outros. Ainda, terá que ter dinheiro vivo para sobreviver os meses em que ficar sem faturamento. Nesse projeto, suponhamos que investiria, inicialmente, um montante de R$ 100 mil.

Anos depois, você vai muito bem obrigado com a sua fábrica, embora fabricando somente umas 10 mil mesas por ano. Lucrando pouco, mas firme e forte. Só que alguém lhe dá a ideia de transformar o seu negócio num grande sucesso de produção de mesas, passando a produzir um milhão de mesas por ano. E que ainda tenha um político, que em muito possa ajudar. Você se apaixona pela ideia, só lhe falta o capital para elevar a produção de 10 mil para um milhão de mesas.

Ora, quando se precisa de dinheiro, o banco é o local certo a se procurar. Mas, quem produz 10 mil e repentinamente, quer produzir um milhão de mesas, o banco fica desconfiado e só empresta com garantias e juros altíssimos. Portanto, esqueça a ideia de empréstimo bancário, pois provavelmente não terá sucesso.

Mas, aí vem a 'ação' como num passo de mágica. Pois, para produzir o milhão de mesas se faz necessário um investimento ao nível de R$ 100 milhões e você só tem R$ 100 mil de patrimônio. Aí, você lança na bolsa de valores R$ 100 milhões em ações de sua fábrica. É a maneira mais barata de conseguir capital e relativamente rápido.

Patrimônio Virtual

Pois é, você tinha R$ 100 mil em patrimônio e agora, num passe de mágica, você passa a ter R$ 100 milhões e, naturalmente, mais os R$ 100 mil que tinha antes. Só que, apenas os R$ 100 mil iniciais são verdadeiros, o resto é virtual, ilusão.

Mas, não esqueçamos o político anteriormente citado. Bem, o tal político tem um 'Consultoria' daquelas que transforma o seu patrimônio à proporção de 20 vezes mais. E o tal político-consultor lhe garante uma compra não de 1 milhão, mas de 20 milhões de mesas, pois já tem um Ministério 'na mão', que vai comprar toda essa montanha de mesas.

Pronto, agora você só precisa de alguém que coloque essa 'contratação' milionária nas bolsas de valores. E suas ações pulam em 'valor de mercado' dos R$ 100 milhões para, no mínimo, R$ 2 bilhões, ou seja 20 vezes mais.

Recapitulando: você possuía um patrimônio real de R$ 100 mil, lançou R$ 100 milhões em ações de sua fábrica e agora essas últimas, com o tal boato e o tal político-consultor, passaram a valer R$ 2 bilhões. Parabens, você é um empresário de sucesso e já é o mais novo bilionário do pedaço. Simples e fácil; bastou uma ideia, um político-consultor, um boato, cara e coragem e ainda, as bolsas de valores.

Os Bancos

E se o bicho pegar? Acontecer algum acidente de percurso e você não conseguir a contratação de 20 milhões de mesas pelo dito Ministério? Então o prejuízo será grande, pois você só pode 'responder' por R$ 100 mil, que no 'mercado' estão valorizados em R$ 2 bilhões. Nesse caso, quem fica com o prejuízo de R$ 1,9 bilhões? Até há uns cem anos atrás, quem ficava com o prejuízo eram os bobos que acreditaram no boato, quero dizer, na estória, como aconteceu na quebra de 1929, em Nova York.

Mas, de um bom tempo para cá, os bancos começaram a 'entrar' no negócio de ações. Todavia, banco é alérgico a prejuízo, entretanto têm os governos 'na mão'. Portanto, quando o bicho pega, quem paga essa conta é você, o Seu Zé Ninguém, que nem é rico e nem é pobre, e que não tem dinheiro para brincar com essa coisa de rico.

E como isso pode acontecer? Isso é um absurdo! Reclamaria você acobertado de razão. A resposta é simples. Esses prejuízos são de porte bilionário e, como dito, os bancos não assumem qualquer tipo de prejuízo, para isso 'elegem' uma boa maioria nos parlamentos para aprovarem o famoso 'bolsa banqueiro'.

Dessa forma, quando a bolsa de valores ou o mercado financeiro (que é o conjunto de todo esse mundo virtual e de enganação financeira) entram em crise, os governos acodem com o 'bolsa banqueiro', que é, nada mais, nada menos do que você pagando o prejuízo através dos impostos recolhidos. E se o governo não 'ajudar', então eles ameaçam com colapso total, desemprego generalizado e falência de milhares de grandes empresas. Não tem governo que resista.

Crise Imobiliária

Lembra de 2007 e sua crise imobiliária? Um exemplo básico da especulação e do enriquecimento 'virtual', do 'crime legal'. Veja como aconteceu.

Os Estados Unidos não são amigos de políticas públicas no setor social. Por isso, lá muita gente não conseguia a casa própria.

Os bancos descobriram isso e lançaram no mercado um projeto 'social' para ajudar ao norte-americano pobre adquirir a sua casa própria. O programa consistia em oferecer financiamento para casa própria com prestações, vamos dizer, de uns R$ 50 por mês e com prazos para os bisnetos pagarem.

Veja, se você paga R$ 300 de aluguel, como não aceitaria uma oferta dessa? Pois assim também pensou a grande parte da população norte-americana. Até sem teto, sem terra e mendigo compraram casa nesse projeto 'social' dos bancos.

Quando o bicho pegou, os 'ingênuos' dos bancos procuraram o governo em busca do 'bolsa-banqueiro'. O valor total do prejuízo foi pequeno, somente 700 bilhões de dólares. Entende agora, porque os States ultimamente estão com problema de caixa? Mas, quem pagou? Naturalmente, o contribuinte nos Estados Unidos, em alguns casos, o de vários países da Europa.

Crise do Euro

A Europa não quer aquietar-se. Problemão. Outra vez os bancos estão de pires na mão. Então, o que aconteceu?

Depois da 'guerra fria' os países europeus se uniram na chamada União Européia, formando um bloco econômico com moeda única: o Euro. Só que, dos 27 Estados membros, somente a Alemanha, França e Itália são economicamente significantes. Os 24 restantes sempre estiveram em crises.

Quando um país está em crise, não só há deficit econômico, muito mais ainda, também social. Se um governo não recebe em impostos quantidade suficiente para os gastos (em especial, os sociais), então resolve o problema emitindo moeda sem lastro ou, pior ainda, 'pedindo dinheiro emprestado' através de emissão de 'papéis' de dívida (isso seria caso idêntico à nossa estória acima, a título de 'ações'). Esses 'papéis' são comprados pelos bancos a preço de banana. Está instaurado o caos: os governos emitem/vendem 10 bilhões de euros em 'papeis' e recebem tão somente 1 bilhão de euros (em dinheiro vivo) nesse tipo de 'negócio', mas vão pagar 10 bilhões de euros + juros, correção, etc. Com isso, o lucro dos bancos fica acima de 9 bilhões de euros, sem contar os juros e a correção. Negócio, pra lá de, da China. Nesse tipo de negociata, dá pra ter país com saúde financeira?

Foi o que aconteceu com a Grécia, Espanha, Portugal e outros países da região. O preocupante é a Itália que está envolta com dívidas quase impagáveis, mas tem uma economia bastante forte e, se falir, leva o resta da Europa junto.

E agora? A dívida total desses países europeus é impagável. Os bancos estão cobrando e ameaçando. Só a Alemanha e a França têm dinheiro para negociar um valor pagável, mas suas respectivas populações não querem nem saber disso. Quem concordaria em pagar dívida dos outros, que não souberam administrar suas finanças, gastando o que não tinham? Mas, a pressão é grande, pelo contrário o euro cai. Até agora estão resistindo, mas o certo é que não haverá 'bolsa banqueiro'.

Fim do enriquecimento 'virtual'

Acredito que você pense comigo: isso tudo não mais pode acontecer. A vida econômica mundial jamais deveria se sustentar em 'bolsas de valores', ou seja em especulação, boatos e intrigas. As atividades das 'bolsas de valores' e do mercado financeiro, já há muito, estão além da fronteira do crime organizado. São verdadeiros crimes 'legais'.

As transações são tão obscuras e antiéticas que os especulantes chegam até a pedir 'emprestado' a um banco ações com boa posição na cotação da bolsa (vamos supor R$ 100 por ação) com a finalidade de 'venderem' essas ações no mercado. Depois colocam um boato qualquer de que a empresa em questão está em dificuldades enormes. As ações naturalmente caem logo (vamos supor para somente R$ 10) em valor/cotação . Daí,  o especulante compra as ditas ações (agora bem baratinhas como broa) no valor de apenas R$ 10 e simplesmente devolvem as mesmas ações ao banco emprestador, faturando líquido 90% sobre o valor incial, pois a relação dele com o banco foi tão somente 'pedir emprestado as ações', para depois devolvê-las, sem qualquer custo ou ônus. Quem já se viu pedir um bem emprestado, vender e, quanto o preço baixar muito, vou lá e compro de volta, só que, agora, por preço infinitamente menor do que vendi antes, para então devolver ao legítimo dono?

A especulação não deve gerar direito a ganho, pois é um jogo de azar. Quem não tem sorte no jogo que arque com o próprio prejuízo.

Urge que a economia mundial encontre um novo caminho e ambiente de expansão, norteada e baseada na realidade econômica dos parceiros e na produção. Deixemos o jogo de azar para os cassinos e loterias. Noutro caso, a especulação deve ser onerada com impostos altíssimos, na mesma proporção dos jogos de azar e/ou loterias. 

Aí, todo Seu Zé Ninguém vai conseguir dormir tranquilo, sem medo de acordar vítima de 'assalto' ao seu pequeno e pobre patrimônio.

Acelino Pontes

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