domingo, 6 de março de 2011

A Intriga


Fonte: Internet.


O método mais antigo e usado na política é a intriga. Infelizmente esta virose tem afetado em muito o relacionamento entre lideranças. Os dicionaristas definem a intriga como ação de mexerico, cilada ou de traição, mas popularmente conhecida como fofoca.

A anatomia da intriga revela três elementos básicos: o intrigante, o intriguista e o intrigado. O Intrigante é geralmente pessoa de nível intelectual extremamente baixo, descontente com seus próprios feitos e realizações e que, por sentimento de inveja e de até ódio, procura prejudicar àqueles que têm a coragem de produzir e realizar em benefício da comunidade. O intriguista (veículo de divulgação e propagador) tem como característica principal uma frágil personalidade, permitindo facilmente sua manipulação pelo intrigante; outra premissa é a sua marcante incapacidade ou impossibilidade de avaliar a verossimidade das informações recebidas. O intriguista e intrigante jamais procuram a verdade dos fatos. O intrigado tem obrigatoriamente como qualidades natas a inteligência e o impulso de realizar, construir e criar, qualidades estas, que incomodam.

Na sua formação, a intriga requer uma estória com fatos contrários ao ideal e, principalmente, à realidade (ex.: o padre visita regularmente uma amante). No segundo momento requer, que ao ser repassada a estória, o intriguista esteja intelectualmente incapacitado, fisica- ou ideologicamente impossibilitado de captar a verdade nos fatos. No exemplo apresentado, dificilmente os paroquianos indagar-se-iam com o pároco sobre um seu possível relacionamento amoroso. É importante ressaltar, que a malha da intriga, jamais repassa a estória a alguém do conhecimento ou da amizade do intrigado, sob pena de a intriga ser esclarecida e perder assim seu efeito social, econômico e político. Há quem discuta também o efeito da intriga sobre o poder, mas existe: se ela não intenta em ganho de poder para o intrigante, implica em perda de poder para o intrigado.

Existe um comprometimento decisivo do intriguista na propagação da intriga. Ele desconfia da falsidade da estória e evita repassá-la para os íntimos do intrigado; no íntimo, deseja que ela prospere como se isto apagasse seus infortúnios pessoais. Portanto, consciente ou não, há sempre uma co-responsabilidade por parte dos intriguistas, até porque não possuem a habilidade nem mesmo de criar as suas próprias estórias e tentam embebedar-se dos efeitos da astúcia da obra alheia.

A intriga é, em essência, uma mentira estruturada. Kant definiu-a “como uma declaração intencionalmente não verdadeira feita a outro homem“ e que “prejudica sempre uma outra pessoa, mesmo quando não um outro homem determinado e sim a humanidade em geral, ao inutilizar a fonte do direito.”

Kant[1] é muito feliz ao expor as máximas sofísticas da mentira estruturada, embora que, os seus autores “sem dúvida não as exprimam em voz alta”:

1.     “Fac et excusa. Apodera-te da ocasião favorável para te apossares de teu próprio poder. A justificação será exposta com muito mais facilidade e elegância, depois do fato” consumado, quando se tem tempo suficiente para dissimular a violenta posse da situação. Além do que, o se antecipar pela violência é bem mais fácil e sem necessidade de refletir ou de procurar motivos válidos e convincentes, tampouco se precisa vencer objeções dos que defendem o Direito. “Esta própria ousadia dá uma certa aparência de convicção interior à legitimidade do fato, e o deus bonus eventus é em seguida o melhor advogado.”
2.     “Si fecisti, nega. Os delitos que tu mesmo cometeste, por exemplo, os que levaram teu povo ao desespero e à revolta, nega-os, declarando não teres a culpa deles; afirma, ao contrário, que a culpa é do humor desobediente dos súditos, ou também, se te apoderas de um povo vizinho, a culpa é da natureza do homem, que, quando não se antecipa ao outro em violência, pode contar seguramente que este segundo se antecipará e se apoderará dele.”
3.     “Divide et impera. Isto é: se existem em teu povo certos chefes privilegiados, que unicamente te escolheram como seu chefe supremo (primus inter pares), desune-os um depois do outro e introduz a discórdia entre eles e teu povo; fica então ao lado do último, sob o pretexto mentiroso de maior liberdade, e assim tudo dependerá de tua vontade absoluta.”

E a conclusão de Kant em 1781: “Estas máximas políticas não enganarão a ninguém, pois são todas já universalmente conhecidas.” Mas a realidade é outra: estas máximas foram ao longo dos tempos estruturando a intriga, que também vem dizimando não só o Estado, como também a sociedade emergente, pela fragilidade da sua estrutura funcional.

A violência mais brutal na intriga é quando da revelação pública de seu enredo, por sequer envergonhar os intrigantes e intriguistas, mas tão somente o seu insucesso. E o maior absurdo é, como relata Kant, que “lhes resta sempre a honra política, sobre a qual podem contar com segurança, isto é, a honra do aumento de seu poderio, seja qual for o meio pelo qual o tenham conquistado.”

Enquanto o cidadão estiver em busca da verdade (por mais enveredada que estiver) estará sempre imune à intriga, mas enquanto colher as informações sob emoção, estará passível a ser manipulado como agente ativo da mentira estruturada, da intriga.

Acelino Pontes


[1]  Weischedel, Wilhelm: Immanuel Kant, Werke in sechs Bänder, Wissenschaftliche Buchgesellschaft, Darmstadt, 1956-1964

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